sexta-feira, 2 de maio de 2025

Câncer

Anamnese.
Primeiro abriram-lhe a cabeça.
E um a um os seguros recônditos
do corpo foram devassados
em operações de signo maldito.

Diagnóstico.
Quando se descobriu que tinha câncer
de pulmão, em metástases camuflado,
percebi que não se deixa de viver apenas quando se morre,
mas também quando se vive destroçado.
Foi aí que vi que meu pai tinha medo,
que os pais não guardam o impossível segredo
da invencibilidade.

Noite fatídica.
Televisão da sala ligada, vigília da madrugada,
transmitia as Vinhas da Ira.
Na mesa, da coleção vermelha, Germinal.
Nada se concluiu. Nem o filme, nem o livro, nem a noite.

Emergência.
Pâncreas? Coração? Pulmão?
Dá-lhe remédio, injeção, verifica batimento, observa respiração...
Melhor ficar sentado, deitado não.
Respiração, batimento,
internação.

Hospital.
Dia seguinte, espiral descendente,
fôlego de afogado,
domínio do inconsciente.
Médicos amigos,
chorando francamente,
me revelaram o fim
antes mesmo que chegasse.

O fim.
Chegou, mas não entendi, até anos mais tarde,
o sofrimento que ele sentia
ou as palavras que dizia(m), tudo,
pela metade.
Não percebia, imaturo,
que um mestre diz tudo o que é preciso
com meias ou poucas palavras
e mesmo depois de calado.

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