terça-feira, 5 de maio de 2015

A boca que habita o verso

O hálito habita a boca
Habitam a boca os dentes
Os dentes circundam a língua
A língua móvel na gente.

A gengiva habita a boca
Habita um céu sem estrelas
Há saliva boca adentro
E boca afora há poeira.

Habita a boca a palavra
Escorregando da mente
É sempre de sua lavra
Falar a palavra, urgente.

Habita a boca a lembrança
Do beijo e do queijo bons
Habita a boca o remédio
O desagrado e seus tons.

Habita a boca a recusa
Fechada não entra mosca
Aberta não é reclusa
A boca, banguela, é oca.

O sopro que a habita
Apaga o fogo da vela
E é o sopro que atiça
A centelha mais singela.

Habita a boca o reclamo
Se algo vem nos ferir
Mas se escancara em derramo
Para o que a faz sorrir.

A boca que tem berrado
Sussurra bem de mais perto
E beija no rosto amado
E cospe no desafeto.

Habita a boca o espanto
O beijo de mãe que cura
Toda a beleza do canto
E o nascer da leitura.

Habita a boca a bebida
Com muita sede, secura
Nas refeições a comida
Que ela acolhe e tritura.

Habita a boca o espirro
A tosse desde o pulmão
Mas também há o suspiro
De saudade ou de paixão.

Verborragia é tão fácil
Difícil é parar assim
À boca, então, o epitáfio:
Calou somente no fim.

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