quarta-feira, 19 de abril de 2017

Carpintaria nietzschiana

A filosofia do martelo
se abate sobre a cabeça
de quem o ego nega ser prego,
ou pretende que se esqueça.

Ela diz: pensa por ti mesmo!
sem divina luz anterior
ou cego preconceito,
sem receita para aliviar a dor.

A dor é possível, se passível for.
Ser passivo nunca é bom,
melhor passável qual ator

que interpreta e desvenda o dom
que é a vida; complô,
se não lhe damos nosso tom.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

PEQUENA LEI DA FÍSICA HUMANA

Quem não faz
Apenas vê
O que nos podem fazer.
Não escolher é escolha.
Omitir-se é uma ação.
E o arbítrio também é livre
para a indecisão.
Mas lembre-se, no papel a escolher,
Carroça, burro ou patrão,
A rédea, na mão alheia,
Controla sua direção.

FLAGRANTE DE UM CHAPÉU

Vi ontem o chapéu no chão,
que o vento o derrubara.
Não imagino quem seja
o dono, nem perguntara.

Prefiro inventar histórias
de onde possa ter saído.
Participado de glórias,
histórias tristes vivido?

Trancafiado na caixa
antes que alguém o tirasse,
fibras de mole tecido,
em que cabeça pousaste?

Terá ido a uma festa,
ou foi de alguém que não quis,
sombra à cabeça do asceta
ou de um qualquer infeliz?

Acenou para a mulher,
que não o viu por um triz,
ou foi apanhado no abraço
caliente da meretriz?

De onde veio?
Pra onde vai?
Rodopiando no mundo
qual navio em muitos cais.

Terá o chapéu o destino
daqueles que o carregam
perdidos, sem rumo e tino
que à sorte pura se entregam?

Ou ele é que trilha e marca
a sorte dos que são donos,
como só quem pune a mágoa
de uma vida de abandono?

Eu já não posso saber.
Apenas o vi ao vento,
Tangido sem pretender
Ser eterno o seu momento
Antes de ir se perder.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Catarse

Se não consegue, segue.
Se não atura, atira
A poesia à altura
Em que se enxerga a vida.
Se não viver, que viva,
Não tem que ser só vivo.
Se não possui, sua
Até ter possuído.
Pois a palavra é pura
E a poesia fia
O criador e a cor
que a criatura mira .

segunda-feira, 27 de março de 2017

Xadrez

peão contra peão na vanguarda
tensa e descartável, emulando
a dinâmica incansável da batalha,
“mens sana in” tabuleiro insano.

cenário em que se vai sacrificando
soldados de uma peça que se racha,
rude, no início, mas os santos
se esculpem dessa mesma acha.

e a tática visão já não se basta
se vem, no fim, relampejando
o apuro de um tempo que massacra.

a dizer ao artífice mais humano
não basta seguir imaginando
que tudo se resolve em uma jogada.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

controle insanitário

Não tinha situação
que não estivesse louco
para ser são.

E essa tal ansiedade
foi a perdição
da sua sanidade.

sábado, 24 de setembro de 2016

partida volta

Partida
É parte da volta.
As duas,
Parte da vida.
Quem parte vai,
Parte volta,
Ao ponto de partida.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Instantâneo impermanente

Diz-se que a fotografia
É um instantâneo fiel,
Mas quase nunca alivia
Examinar seu papel.

Nada me diz o que vejo
Não me lembra o que vivi,
E ao olhar o espelho
Eu mesmo não percebi.

Que, neste momento exato,
Já sou outro ser humano,
Em cada segundo mudado,
Exceto em seguir mudando.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A boca que habita o verso

O hálito habita a boca
Habitam a boca os dentes
Os dentes circundam a língua
A língua móvel na gente.

A gengiva habita a boca
Habita um céu sem estrelas
Há saliva boca adentro
E boca afora há poeira.

Habita a boca a palavra
Escorregando da mente
É sempre de sua lavra
Falar a palavra, urgente.

Habita a boca a lembrança
Do beijo e do queijo bons
Habita a boca o remédio
O desagrado e seus tons.

Habita a boca a recusa
Fechada não entra mosca
Aberta não é reclusa
A boca, banguela, é oca.

O sopro que a habita
Apaga o fogo da vela
E é o sopro que atiça
A centelha mais singela.

Habita a boca o reclamo
Se algo vem nos ferir
Mas se escancara em derramo
Para o que a faz sorrir.

A boca que tem berrado
Sussurra bem de mais perto
E beija no rosto amado
E cospe no desafeto.

Habita a boca o espanto
O beijo de mãe que cura
Toda a beleza do canto
E o nascer da leitura.

Habita a boca a bebida
Com muita sede, secura
Nas refeições a comida
Que ela acolhe e tritura.

Habita a boca o espirro
A tosse desde o pulmão
Mas também há o suspiro
De saudade ou de paixão.

Verborragia é tão fácil
Difícil é parar assim
À boca, então, o epitáfio:
Calou somente no fim.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

tempo em transe

Todo dia é um começo,
mas o recomeço é a todo instante.

           Todo segundo conta,
mas nem toda contagem
importa.

O segundo todo
nem sempre é tudo,
mas tudo começa
em todo segundo.

E a vida
no fuso
do relógio
vegeta
presa
por aparelhos
que vibram
alertam
piscam
e chamam
a atenção
para o tempo
que passa:
incerta
contagem
regressiva
para(lisa) o futuro.

Gênese

As vozes dissonantes no espaço,
Lançadas à força do pensamento,
Vagam sem destino até que o traço
As põe em mais modesto firmamento.

E o texto segue com mil vozes dentro,
Prisão e liberdade, o papel casto,
Inerte sobre a mesa em um momento,
Em poucas linhas faz-se o mais devasso.

O aço da palavra é sempre o mais fugaz
Em que se malha dia e noite, frio e quente,
Em busca da forma que faz e se desfaz.

E finalmente quando a têmpera é atingida
Lança-se a seta que cura a tua ferida
Enquanto outras seguem a te tirar a paz.